Ela me convidou pra pescar, aquela mulher cujo nome até já esqueci… Tenho uma vaga ideia de que se chamasse Sônia. Ou talvez um nome mais simples, desses que o pessoal inventa juntando o nome do pai e o da mãe. Não sei mais… Ficou o essencial, enfim. Ela me convidou pra pescar de noite e eu aceitei, naquela terra onde eu “dei de parar”, em circunstâncias peculiares, digamos, “ligianas”, como disse uma amiga minha, ou seja, as mais inusitadas possíveis. Me preparei, acho que íamos pescar de tarrafa, entrar no mar à noite. Procurei ficar à altura do acontecimento, mesmo com a minha desajeitada urbanite. Acabou não acontecendo. Ela foi antes e pescou sozinha. Depois me convidou pra almoçar. Sei que fazia muito calor e eu não entendia por que tinham feito tantos pratos quentes. Uma multiplicação de peixes! De todos os tipos, preparados de muitas maneiras… Camarão à milanesa. Uma espécie de sopa de camarão que me pareceu escaldante e intragável. Que nada! Comi, suando feito uma louca e era uma delícia! Eu lembrava o Drummond: “Tudo se comunica. Tudo no coração é ceia”. Comeria tudo que ela me oferecesse. Ela era Babette e eu um daqueles camponeses, tímidos a princípio e depois ávidos. Talvez fosse a vontade de comer o mundo, de comungar com tudo. Era possível… Mulher incrível aquela, trazendo em si amorosamente lembranças de um companheiro desbragado, beberrão, farrista e amado por todos. Quantas faces temos? Mas ela não era nenhuma viúva de aldeinha portuguesa em eterno luto. Na sua casa, que guardava recordações dele e onde ela preferia não pisar muito, uma máscara dourada e fantasias de carnaval. Dela.

   E hoje, não sei por quê, acordo pensando nela, me sentindo muito peixes, signo da minha lua, capaz de abraçar e abarcar tudo que vivi, sem rejeitar nada. Afinal, somos feitos daquilo que se bebeu, consumiu e comeu.

Lígia Savio

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