Alice

Ilustração original da obra “Alice”, de Lewis Carroll

    Do profundo abismo em que eu me achava… Mãos arranhadas de tentar escalar o poço, mãos arranhadas de ver que nada resiste, que de íntegras talvez só estas pedras contra as quais me bato, que outras coisas se esfacelaram, sempre se esfacelam. Ou deslizam, não sei. Nada tem um lugar fixo, tudo é instável. Mesmo aqui dentro, com estas paredes úmidas e cheias de ruídos furtivos. Sinto a presença de ratos, de pequenos animais fétidos. Me encolho então cada vez mais para que não me toquem, mas sinto um frêmito de patas minúsculas, pelos, antenas, focinhos. Me sinto à mercê desta vida repugnante e multiforme que sussurra a meu redor. Foi esse o mundo que me apareceu. Não sei se preferia o deserto do lado de fora do poço onde eu já caminhara até os pés me sangrarem. Talvez seja isso que atraia os bichos aqui dentro: o cheiro de sangue do meu corpo. Sem contornos, sem rumo, na escuridão, num profundo abismo, sem clamar a ninguém. Bato a cabeça contra as pedras, agora já sem medo de topar com lesmas, lacraias ou qualquer outro ser rastejante ou pegajoso. Bato a cabeça num gesto de carpideira e algo escorre de mim, não sei sangue ou água que me batiza no fundo poço.

(À beira do túnel, o coelho espera enquanto Alice conta essa outra história).

Lígia Savio

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