Alba Maria Joana - recortada

   Se abre os olhos na manhã, lembra a avó dizendo que era para lavá-los à meia-noite quando rompesse o  domingo de Aleluia, acordar e sentir a água nos olhos e afinal foi num domingo de Páscoa que a avó se foi, deixando ditos, provérbios, histórias inacabadas e lembranças da cidade portenha onde morou num bairro antigo. Se abre os olhos e se vê só no mundo, traz névoas nas pálpebras e se lembra que os maricás florescidos já em março eram sinal de inverno muito frio, de acordo com as palavras da avó. Traz todas estas coisas, estas cargas e toda a grande façanha talvez será transformar tudo numa herança mais leve, num passado mais solto. Então percebe que o que lhe resta são as palavras, já que as pessoas todas se foram (quem disse que ele tinha que ser amado?).

   E escreve porque é sua forma de alquimia, de transmutação. Afinal a herança mesmo foi verbal: todos liam, todos escreviam e a avó falava. E se abre os olhos de manhã, vê que não tem ninguém ao seu lado. Mas desta solidão e de um oco preenchido por palavras, forma talvez uma pedra, uma concha, uma pérola.

Lígia Savio

Publicidade