LENÇOS

LENÇOS

 

Elas nasceram para portar lenços

que voavam no vento.

Era o que eles diziam sempre.

Os lenços flutuavam suaves

como aves leves

e sugeriam brancas nuvens

dispersas na tarde.

Eles gostavam de olhar os lenços

e de olhar por elas (eles achavam)

pra tudo que os rodeava e vivia

em seu mundo vazio.

Elas nasceram para portar lenços

(eles pensavam),

lenços finos, claros, delicados,

que um dia elas soltaram, vivazes,

de suas gargantas arfantes

e com mãos ferozes, vorazes,

nos pescoços deles ataram

e puxaram tanto, implacáveis,

que ficaram sozinhas na estrada.

 

Uma estrada deserta, sem lenços,

pra poder começar a viver.

 

 

 

 

 

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Vomita então agora

aquela dor que mais doía

o nefando

o monstruoso.

E tenta articular

organizar os sons-palavras.

Boca não é só pra sugar.

Maldição é não tervoz.

Te retorce nas dores do parto

e dá à luz

o inominável

até ele poder ser  dito

Minotauro

No mapa do labirinto

um rito de passagem

mas sem fios, sem ninguém

que decifre

a geografia desta viagem.

Passar a mão pelas paredes de musgo

de  umidade

da pele áspera das pedras

com a certeza

de que só se vai ao fim do fundo

sozinho.

E no centro, quem sabe,

apenas um espelho

para que possas contemplar

a fera

que te espera.

Curso Três olhares sobre o duplo

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   Começa neste sábado às 10h30min na Palavraria Livros & Cafés o curso Três olhares sobre o Duplo com Clotilde Favalli, Mara Jardim e Lígia Sávio.

Cronograma do Curso

8/O8 – Aula de abertura: os mitos referentes ao duplo; as diferentes faces do duplo ao longo da história da literatura. Com Mara Jardim e Lígia Savio

15/08William Wilson, de Edgar Allan Poe. Com Mara Jardim

22/08O gato preto e A queda da casa de Usher, de Edgar Allan Poe. Com Mara Jardim

29/08O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson. Com Clotilde Favalli

12/09O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Com Clotilde Favalli

19/09Aura, de Carlos Fuentes. Lígia Savio

26/09 – Contos de Julio Cortázar: Todos os fogos, O fogo, A noite de barriga para cima Longínqua. Com Lígia Savio

As inscrições devem ser realizadas na Palavraria Livros & Cafés.

Endereço: Rua Vasco da Gama, 165 B. Bom Fim

Telefone: (51) 3268-4260

 

 

É para lá que eu vou…

   Quero um lugarzinho no planeta Kepler 452 b, descoberto recentemente, onde pode ser que me sinta mais em casa. O ano é de 385 dias, mas a gente não tem que festejar nada, muito menos o Natal, pois Jesus nasceu aqui na Terra, dizem os entendidos.Quero um lugar com crateras, talvez uma lua e uma estrela- sol que fica na constelação de Cassiopeia, sem deuses e sem principezinhos chatos. Sem loucuras humanas, sem ter que tentar compreender os keplerianos, que, de acordo com o que eu espero, adoram o silêncio. E meditar e pensar. E também rir. As Pasárgadas talvez estejam mais ao nosso alcance do que supomos. Lá a gente não explica nada, não nos cobram nada. Sem este frenesi humano para o qual nunca tive vocação. Com a total liberdade de confessar que cada vez entendo menos o que se passa por aqui. Na total liberdade das minhas incertezas e desconhecimentos. Espero o próximo voo.

docevita 09

Imagem retirada do blog Cineminweb.

Do outro lado da gangorra

tinha sempre uma figura

e o sobe-desce contínuo

mostrando que cada dia

podia ser pior que o outro

no palco do circo dos horrores.

                                       Nos espelhos deformantes, no trem-fantasma,

                                       o mesmo rosto velado a descobrir

                                       em meio a caveiras pintadas

                                       e outros monstros inventados.

Abriu a porta da câmara secreta?

Descobriu o grande segredo?

Achou a face perdida

e pôde dar gargalhadas?

morte em veneza

Imagem retirada do blog Avulso ao avesso.

                                      (De longe, a menina na praia,

                                      diz coisas que o vento leva.

                                      No mar, o menino aponta o sol…)

No banheiro do Brum

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Imagem do filme O mágico de Oz

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As torres de Angkor Wat, “Cidade dos Templos”, elevam-se no meio da floresta tropical.

   Banheiro feminino no colégio. Muita gente escovando os dentes, se pintando, dando uns retoques pra começar a tarde. Saindo do sanitário, escuto a frase: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Alerta vermelho! Frase virginiana! Nem sei a que se referia. Peguei o bonde andando e me meti onde não fui chamada, como faço às vezes. “Mas… as coisas não todas misturadas? Não tá tudo junto? As próprias pessoas…” E até citei Guimarães Rosa que disse alguma coisa assim de um jeito bem melhor que o meu. Ficamos eu e a Córa e seguiu o papo. Até contei pra ela um caso meio escabroso de “coisa misturada”… Nisso começou um vento tão forte que chegou a abrir a porta do banheiro. Fui fechá-la e de repente nos vimos no meio de um torvelinho, o pé de vento parecendo um verdadeiro ciclone, sugando e fazendo voar tudo que havia no banheiro, nós duas, inclusive! Giramos feito loucas durante alguns segundos no túnel de vento, a Córa ainda agarrada na bolsa, as minhas chaves e sapatos jogados pra longe. Me veio à mente a história do mágico de Oz. Será que quando aquilo parasse a gente ia chegar à Estrada de Tijolos Amarelos? Acabamos pousando num telhado estranhíssimo, nos olhando como duas aves assustadas.

– Mas… o que é isso?

– Será que a gente tá muito longe da Restinga?

– Córa, tem certeza que tua pasta de dentes não era alucinógena?

– Mas eu só estava passando o delineador…

   Olhei ao redor. O lugar lembrava uma foto que eu tinha visto do Cambodja, lá no colégio mesmo, com umas torres diferentes de tudo que eu conhecia. Mas pensei na Tailândia também. Enfim, Restinga, Cambodja, Tailândia não tá misturado e parecido?

– Sora, terminei a dissertação! Dá uma olhada… Era o Wesley me chamando, me trazendo àquela realidade. Em quantas dava pra viver ao mesmo tempo? O Leonardo já tinha posto meu casaquinho de linha e meus óculos escuros. As gurias tentavam fotografá-lo, enquanto ele executava movimentos de macaco. Professora viajante: zorra total na sala.

          Na rua, o vento tinha parado.

Momento

Qual o sentido da vida? — Isso era tudo — uma pergunta simples, das que tendem a agrilhoar uma pessoa com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… 

(Trecho de Passeio ao farol, de Virginia Woolf)

Quem sabe o dia de hoje?

Virginia

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Virginia Woolf – Foto retirada do blog Monte de Leituras de Alfredo Monte

Sonhei que sonhava
com ela:
um riacho me levou
até suas águas.
Entrei em seu espírito
acompanhando-lhe os passos
na estrada de flores recém-abertas
da estação que começava.
“Mas tu estavas de olhos fechados
prendendo o tempo em teu sorriso
e em tua vida a primavera
não pôde achar nenhum motivo.”
Recolhe as pedras,
mas não sente o peso
num desespero(suave?),
numa angústia urgente,
mas já também aliviada
e completamente decidida
à beira do rio Ouse.